
Acabei de voltar da sala, onde estava assistindo o vídeo da minha formatura do 3º colegial.
Chorei do começo ao fim. Eu era uma das últimas da fila, então fui uma das últimas a entrar no salão. Lembro que na hora de formar a fila já começou a minha angústia. Eu tinha terminado o colégio sem amigos de verdade, sem um grupo, sem uma panela. Então eu nem tinha onde me encaixar naquela fila enorme de gente feliz. Entrei no meio das meninas que me acolheram depois de uma bela reviravolta na minha vida. Entrei no meio das meninas que não ligavam pra coisas relevantes e apenas te aceitavam do jeito que você é. Entrei no meio das meninas que me faziam rir na aula. Entrei no meio das meninas que foram as minhas primeiras amiguinhas quando eu passei pra turma da manhã.
A música começou a tocar e entramos no salão. Ver aquele monte de professores em cima do palco esperando a gente e ver os pais dos meus amiguinhos do pré com os olhos cheios de lágrimas, só fez aumentar o choro que estava se entalando na minha garganta. A gente sentou nas primeiras fileiras. Do meu lado, as meninas que me acolheram. Mas eu sabia que, no fundo, eu não faria falta. Atrás de mim, os meninos que sempre foram meus amigos, até meu ex-namorado (que também estava sentado atrás de mim e que na época eu ainda amava de paixão) terminar comigo. E aquelas que antes eram minhas amigas, lá do outro lado do salão. Aquelas amigas que marcavam até noite do pijama, sabe? É...E, no meio delas, uma que me fazia muita falta, mas que ficava dividida entre elas e eu.
Tocaram os hinos do Brasil e da Alemanha (pra quem não sabe, estudei a vida toda em colégio alemão) e a diretora começou a falar. A diretora, que foi a minha primeira professora de alemão. Aquela que levava chocolate pra gente na aula. Aquela que pegava a gente no colo quando ia dar bronca na gente. Aquela que deixava a gente sentar na mesa dela enquanto ela estava na lousa. E aí eu comecei a chorar. Aí eu comecei a entender que aquilo tudo ia acabar e que eu estava terminando o colégio sem levar amigos.
Começou a entrega dos canudos e, a cada um que subia no palco, os outros gritavam o nome. Meu medo era ninguém gritar meu nome. Meu medo era ninguém nem bater palmas pra mim, além da minha família e dos professores educadinhos. Afinal, eu sabia que a vontade da maioria ali era simplesmente ficar em silêncio (e eu sei muito bem quais foram as pessoas que bateram palma por vontade própria e não somente por respeito). Mas, falaram meu nome. Me chamaram lá em cima, depois de terem chamado meu ex-namorado. Eu estava meio sem fôlego, sem jeito. Nem tinha conseguido bater palmas pra ele, de tão estremecida que eu ficava, só de ver aquele menino passando na minha frente. Mas eu subi no palco, bateram palmas pra mim e até gritaram "Carol!". E eu abracei minha paraninfa e chorei. Ah, mas eu chorei tanto. Chorei porque eu tinha a certeza de que estava indo embora daquele colégio sem levar amigos. Depois de 13 anos no mesmo colégio, eu não tinha tido a capacidade de levar amigos. Levar uma turma. Levar a vontade de querer rever aquelas pessoas. Levar a vontade de querer fazer aqueles encontros de 10 anos de formatura típicos de filme, sabe?
A cerimônia foi indo e eu só chorava. Os outros alunos comentavam os fatos entre si, ficavam lembrando das viagens, dos passeios, dos churrascos. E eu não tinha com quem comentar. Afinal, minha viagem de formatura não foi uma Brastemp. Afinal, eu não ía nos passeios que todos iam. Afinal, eu não ia nos churrascos. Eu admito que me tranquei no meu mundo.
Chorei, chorei, chorei.
A formatura terminou. Todo mundo se abraçando e tal. E eu, meio sem jeito, abraçando aqueles que eu achava que valiam a pena. Chorando realmente de tristeza, por não ter vontade de abraçar todo mundo. E chorando também de inveja daquelas pessoas, que estavam levando uma coleção de amigos. Um abraço enorme e maravilhoso na minha amiga que estava com as outras meninas, lá do outro lado do salão. Um abraço enorme e maravilhoso no meu ex-namorado, que eu tanto amava. Um abraço triste na minha amiga que tinha deixado o colégio na 8ª série, porque eu tinha certeza de que ela sabia o motivo de eu chorar tanto.
E a minha vontade era só de abraçar os professores. Eles sim eram meus amigos de lá. Eles sabiam tudo da minha vida e me conheciam como ninguém. Eles sabiam todos os meus pontos fracos e todos os meus pontos fortes também. Eles me viram crescer. 13 anos acordando e indo todos os dias para o mesmo lugar. 13 anos.
Eu fui 13 anos para o mesmo lugar, vi as mesmas pessoas e não consegui levar amigos. Isso é, no mínimo, preocupante.
Espero que agora tenha ficado claro pra todas as pessoas que estavam lá e que tanto estranharam o meu volume de choro.
A formatura foi no dia 18/12/2004. E só agora eu consigo realmente entender o motivo de tanto choro.
Eu espero nunca repetir a cagada que eu fiz nos anos todos de colégio. Eu espero sair da faculdade com uma coleção de amigos. Espero ter opções para padrinhos de casamento e de filhos...Tomara que a lenda de que os verdadeiros amigos se fazem na faculdade esteja certa. Tomara mesmo.
E mais: Sem nada demais hoje, ok? A seleção perdeu, vi esse vídeo e tenho pensado bastante na vida. Então, estou bem melancólica.